quarta-feira, março 11, 2026
  • Login
A história Online
  • Home
  • Notícias
  • PARCEIROS
    • AGENCIA BRASIL
    • BARÃO DE ITARARÉ
    • BRASIL DE FATO
    • CARTA MAIOR
    • MÍDIA INDEPENDENTE
    • OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA
    • REDE BRASIL ATUAL
    • RORIGO VIANNA
    • VIOMUNDO
  • Colunistas
    • Márcio Amêndola
    • Allan Robert
    • Vitor Trindade
    • Leonardo Boff
    • Arney Barcelos
    • Coluna do Kiei
    • Coluna do Tio Marcos
    • Erisvaldo Correia
    • Joselício Junior
    • Ubiratan Kuhlmann
  • SITES RECOMENDADOS
    • ABONG.ORG
    • AÇÃO EDUCATIVA
    • BLOG DO SAKAMOTO
    • CASA DE C. SANTA TEREZA
    • CÍRCULO PALMARINO
    • CONGRESSO EM FOCO
    • DIAP
    • EXPRESSÃO POPULAR
    • FP’ABRAMO
    • INSTITUTO PRAXIS
    • MÍDIA INDEPENDENTE
    • OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA
    • PIRATININGA
    • SOCIALISMO.ORG
    • VERMELHO
    • ZEQUINHA BARRETO
Sem resultado
Ver todos os resultados
FATO EXPRESSO
Sem resultado
Ver todos os resultados

Pressa De Viver

Por
20/05/2011
En Allan Robert
0
CompartilheEnvie pelo Twitter

Allan Robert P. J.

Casou-se tarde. Quando nasceu o primeiro filho estava à beira dos quarenta, mas continuava com aquela ânsia de viver. Fazia tudo ao mesmo tempo e com pressa, o que deixava as pessoas à sua volta sempre em estado de alerta. Tinha o hábito de tomar chá diversas vezes ao dia e chegou a comprar um pequeno fogareiro que ficava sempre acesso aquecendo uma chaleira com água. Tomava chá, fumava, bebericava um copo de vinho e comia pão e queijo em pé, tudo ao mesmo tempo enquanto trabalhava na pequena loja de secos e molhados que abrira. Aos poucos, com o progresso do comércio, foi se especializando até transformar seu negócio em uma loja de calçados. Depois, vieram as pequenas filiais, as viagens constantes, o distanciamento do contato com a clientela e uma vida cada vez mais sem horários. Mal acompanhara o nascimento do segundo filho.

Naquela época usava-se o trem para viajar na pequena e pobre Itália, mas nenhum passageiro reclamava dos seus cigarros. Era um sinal dos tempos. Ele abrira lojas nas cidades litorâneas, mas continuava morando no alto da Toscana. Sentia-se um homem do interior, com valores conservadores. Mesmo assim, construíra sua casa em um ponto de onde se avista o mar. Falava pouco e fumava como um desesperado num tempo em que os cigarros com filtro ainda não existiam.

Nos feriados religiosos fazia questão de estar em casa e reunia toda a família para comemorarem juntos. Foi num almoço de Natal que ele fez a mais assombrosa declaração. A esposa, os dois filhos e noras e os cinco netos não estavam acostumados a ouvi-lo discursando e, de fato, o discurso foi muito curto:

“Sou muito orgulhoso de poder ter dado a vocês as oportunidades que eu não tive, de ver meu neto caçula começando a faculdade no mesmo ano em que o mais velho se diploma. Só se vive uma vez. O que somos hoje não irá se repetir e não teremos jamais a oportunidade de refazer o que deveríamos ter feito. Algumas opções são escolhas nossas; outras, não podemos decidir. Precisamos aceitar a vida como ela é e temos a obrigação de tentarmos ser felizes. Nossa família é composta por estas pessoas com quem dividimos esse almoço sagrado. Ter uma família numerosa é uma bênção. A partir de hoje ninguém mais deverá fingir que não sabe que o caçula desta família é homossexual, assim como ele não deverá mais ficar constrangido de sê-lo. Feliz Natal à nossa família!”

Disse isso e se levantou, foi até onde estava sentado o neto petrificado, abraçou-o e disse-lhe: “você é parte importante desta família”. O resto do dia ele passou na imensa sala com vista para o mar, conversando com os filhos e netos, não se importando com o constrangimento dos outros. Tirou o filtro do cigarro dos novos tempos, tocou o peito com a ponta dos dedos e esclareceu que o filtro faz mal. Tomou chá, vinho e comeu fatias de gorgonzola enquanto as mulheres serviam bolos, tortas e panetone.

Com os anos, vieram os problemas. O coração dava sinais de cansaço, a respiração se tornava mais difícil e o envolvimento com os negócios o estressava cada vez mais. Depois da morte da mulher a vida quase o deixou de vez. Foi obrigado a se aposentar e acabou internado. Estava com noventa anos. Os médicos informaram que não havia mais nada a ser feito. A deficiência cardio-respiratória era fatal naquela idade e a melhor coisa era levá-lo para morrer em casa. Ele convocou filhos e netos para informar que queria ser transferido para um asilo, onde gente especializada se ocuparia dele e que preferia não causar transtornos à família. De nada adiantaram os protestos. Fez apenas uma exigência: queria um quarto com uma varanda com vista para o mar.

Todos os dias alguém o visita. Ele convenceu o pessoal do asilo a fazer vista grossa aos cigarros e ao vinho que lhe trazem. Afinal, estava mesmo para morrer. Que fosse ao menos com um pouco de dignidade e prazer. Verão ou inverno, todos os dias às cinco da tarde alguém o leva de cadeira de rodas para a varanda, onde ele recebe suas visitas, fuma seus cigarros com vinho, chá e fatias de gorgonzola. Fala cada vez menos, apenas umas poucas palavras roucas, mas sorri quando chega alguém da família que ele reconhece e trata sempre pelo nome. Dias atrás, um dos bisnetos levou-lhe as fotos do casamento e informou-lhe que o mais novo representante da família está para nascer. Ele sorriu e, com gestos lentos, pegou um cigarro, tirou o filtro, bateu com a ponta dos dedos no peito e balançou a cabeça, antes de acendê-lo. O bisneto concordou: “eu sei: o filtro faz mal, vô.” Ao que ele retrucou sorrindo: “bisavô. Eu sou teu bisavô”.

 

 

 

**Allan Robert P. J., carioca de nascimento, tem 51 anos, viveu em Embu (SP) por quase duas décadas e lá se casou com Eloá, em 1987. Mudou para Salvador (BA) onde estudou Economia e o casal teve duas filhas. De lá, foram para a Itália, onde vivem atualmente. Allan é micro empresário do ramo automotivo, e Eloá trabalha no ramo de alimentação. Ambos têm raízes (amigos e parentes) na ‘ponte’ Embu-Assis-SP. Allan é irmão dos advogados Bruce P. J. e Dawidson P. J., radicados em Embu. Dawidson já foi do primeiro escalão da Assessoria Jurídica da Prefeitura de Embu no governo Geraldo Puccini Junior (1993-96), e ambos já participaram da diretoria da subsecção da OAB de Embu”.

Tags: Allan RobertCartas da ItáliaItália
Compartilhar1TweetCompartilhar

Deixe um comentário Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  • All
  • Panorama
  • Saúde
  • Meio Ambiente
  • Contraponto
  • Cultura
  • Esporte
Boom de IA é o maior delírio coletivo da história da humanidade, diz Miguel Nicolelis… Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/entrevistas/boom-da-ia-e-o-maior-delirio-coletivo-da-historia-da-humanidade-diz-miguel-nicolelis/. O conteúdo de CartaCapital está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente de CartaCapital vivo e acessível a todos
Destaque

Boom de IA é o maior delírio coletivo da história da humanidade, diz Miguel Nicolelis… Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/entrevistas/boom-da-ia-e-o-maior-delirio-coletivo-da-historia-da-humanidade-diz-miguel-nicolelis/. O conteúdo de CartaCapital está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente de CartaCapital vivo e acessível a todos

Por Redação
01/12/2025
0
6

Um dos neurocientistas mais renomados do país, Miguel Nicolelis não mede palavras para falar da chamada inteligência artificial: em entrevista...

Plano perfeito

Plano perfeito

30/11/2025
6
IZB realiza Assembleia de prestação de Contas

IZB realiza Assembleia de prestação de Contas

12/07/2023
6
Embu das Artes abre inscrições para a IV edição da mostra: “A ESCULTURA AO ALCANCE DE TODOS”

Embu das Artes abre inscrições para a IV edição da mostra: “A ESCULTURA AO ALCANCE DE TODOS”

22/04/2022
6
Assassinatos no campo em 2021 batem recorde dos últimos quatro anos

Assassinatos no campo em 2021 batem recorde dos últimos quatro anos

18/04/2022
6
Poderá a Agroecologia alimentar o planeta?

Nos apps, a nova face do trabalho infantil

28/10/2021
6
Poderá a Agroecologia alimentar o planeta?

Como o maior escritório de advocacia dos EUA leva a riqueza global para paraísos fiscais

28/10/2021
6
Poderá a Agroecologia alimentar o planeta?

Nova rotina: Trabalho híbrido pode piorar qualidade do sono, diz pesquisador

28/10/2021
6
Poderá a Agroecologia alimentar o planeta?

Nicolelis alerta : “O País está sendo dizimado em múltiplas dimensões”

28/10/2021
6
Poderá a Agroecologia alimentar o planeta?

Agenda ambiental em perspectiva histórica

28/10/2021
6
Poderá a Agroecologia alimentar o planeta?

CPI da Covid aprova relatório que aponta crimes de Bolsonaro durante pandemia

28/10/2021
6
Poderá a Agroecologia alimentar o planeta?

Poderá a Agroecologia alimentar o planeta?

28/10/2021
6
FATO EXPRESSO

Copyright © 2020 Fato Expresso.

NAVEGAÇÃO

  • Home
  • EQUIPE
  • NOTÍCIAS

Siga-nos!

Sem resultado
Ver todos os resultados
  • Home
  • EQUIPE
  • NOTÍCIAS

Copyright © 2020 Fato Expresso.

Welcome Back!

Login to your account below

Forgotten Password?

Retrieve your password

Please enter your username or email address to reset your password.

Log In