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Home Colunistas Arney Barcelos

Presentecentrismo e Passadofobia: Dois ódios nossos do dia a dia

Por
18/01/2013
En Arney Barcelos
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*Artigo de Arney Barcellos

A vida atual no ocidente, muito longe de ser uma era de miséria e decadência (como alguns ultrapassados ainda  teimam em dizer), sintetiza-se, na verdade, numa era de gigantescos excessos de todo tipo: Excessos de produção, de capital, de energia, de tecnologia, de comida, de lixo, ….  mas também excesso de gente, de violência, de certezas, de intolerância, de preconceitos, de euforia sem sentido, de “fé” em qualquer coisa (acredita-se simplesmente por acreditar), de irresponsabilidade, de doenças, etc etc etc.

Essa sociedade é uma “sociedade do excesso” porque vivemos o “auge” da modernidade. Muito longe dos que teimam numa (também excessivamente falada, mas nunca provada) “pós-modernidade”, de “crise de valores”,  etc., vivemos sim, na verdade, um mundo totalmente moderno, ocidental, sob valores totalmente burgueses ou “civilizado”, e que ainda se fundamenta sim nos princípios básicos renascentistas e iluministas como: a centralidade do “eu”, a “naturalidade” inquestionável da competição, da evolução, da “ciência”, e da criação de tudo, a supremacia do mundo ideal, virtual ou “espiritual” sobre o mundo “físico” (representado ludicamente pelos humanos como “material”), o mítico e nunca comprovado princípio do “livre arbítrio”, (colocado até na Bíblia, mesmo contrariando as doutrinas judaico-cristãs)  etc

Esse mundo ultra moderno, ou ultra burguês, se expressa no excesso do niilismo, do ultra individualismo, da intolerância e da violência – frutos óbvios de qualquer competição  pela vida e pelo mercado – e vista sempre  como “saudável” (quando na verdade é altamente destrutiva), da fé absoluta e inquestionável em tudo (sempre muito mais declarada do que vivida realmente), pela cultura do “fast-food”, da “evolução”, das imagens, do virtual e do plástico. Tudo só na aparência…

O resultado, só poderia levar mesmo a um cenário de fim da “criticidade” (que hoje, popularmente, virou sinônimo de “pessimismo”), que desde o renascimento, até o fim do século XX, sempre foram tidos como fundamentais e essenciais para a “descoberta” ou para a prevalência da “verdade”, para a construção de um mundo melhor (“verdade” aliás que sempre foi temporária, relativa e usada ao sabor da necessidade política do momento, como já dizia Nietzsche e os seus seguidores), mas que hoje não faz o menor sentido, pois a palavra  de ordem da Modernidade é “curtir a vida como uma “dádiva”, como um sopro, como um flash de momentos provisórios que só devem ser vividos como são, etéreos, provisórios, em que nenhum de nós temos a menor e mais absoluta possibilidade de intervenção,  mudança, transformação, melhoramento, opinião, etc. E por isso mesmo tem que ser vivido com prazer. Somente o consumo, o “enjoy” e a fé em “algo maior” que pensa e determina tudo por nós. Nenhum questionamento a isso é admitido e é isso quem  determina quem é o amigo, o amor, o parceiro, o preferido, o político, etc.

Essa era de crepúsculo ou fim da criticidade  (com o conseqüente óbvio da valorização da mediocridade), levou os humanos ocidentais a um estranhíssimo (e quase  impossível compreender ) comportamento e cultura de “medo  do passado” e também à uma inconseqüente e também inconsciente “luta pelo fim dos tempos”,  como se fosse a única possibilidade real e absoluta de fuga do passado. Ou melhor dizendo, o horror neurótico dos humanos ocidentais nunca mais experimentarem  viver coisas do passado (as reais, não as turisticamente produzidas) – como se o passado  fosse o território do “mal absoluto”.
Um exemplo foi a recente criminalização de Monteiro Lobato, defenestrado como um escritor “racista”, como se ele sozinho, diferente de todos os outros escritores e pessoas de sua época, condenasse os negros  à inferioridade que  a cultura e o senso comum de todo o ocidente considerava como inquestionável e real, antes mesmo de existir a palavra “racista”,  é um exemplo dessa ignorância absurda atual.

Essa estranha e radical negação em querer compreender e conhecer  tanto o passado, como o futuro, acabou por levar a nós, humanos ocidentais, a criarmos um estranhíssimo comportamento de “Presentecentrismo”. Onde tudo é mais que perfeito. Onde passado e futuro não importam, mas sim o “esquecer” os problemas, as doenças, os crimes, as necessidades sociais, os humanos que vivem abaixo da linha da miséria etc, como se não fossem culpa nossa, nem nossa responsabilidade. Como se esses “humanos”  (mais próximos do passado e portanto mais “animalizados” e portanto, menos humanos) não existissem. Como se fossem produtos de um único ser maligno  e nós não tivéssemos nada a ver com isso ou não pudéssemos fazer nada.

Nessa concepção ultramoderna ou ultraburguesa, tanto faz, nossa obrigação é somente o agora e obrigatoriamente de forma “positiva” (ou acrítica) e feliz . Feliz  no sentido de consumir por consumir, como se tivéssemos “escolhido” comprar ou adquirir uma passagem para uma viagem de delícias, onde já está tudo perfeitamente planejado, pensado, estudado, organizado, legalizado, determinado, e colocado à “livre” escolha e disposição de cada um de nós. Como se fossemos os “clientes” que tem toda a “liberdade” (?) de decidir a vida que queremos ter, e como se a vida fosse uma mercadoria adquirida “livremente” no supermercado (como se ser obrigado a escolher por alguma denominação institucional ou ideológica que está nas prateleiras da modernidade para “livre aquisição”, fosse realmente liberdade) ou pior e mais non-sense ainda, como uma “simples rajada de vento”. (Nesse último caso trata-se de uma concepção hiperrealista e de obviedade indiscutível, porém é também uma demonstração absoluta de incapacidade de compreensão do que é o ser humano e a humanidade..).

Vemos então que, nesse contexto em que vivemos de domínio preconceituoso do “presentecentrismo” e do medo do passado (e do futuro) em todo o mundo “civilizado”, a única concepção de História possível e compreensível é a da “História como festa” – e não como realidade e construção humana

“História como festa” significa as produções culturais comemorativas, publicitárias, turísticas, midiáticas, como museus, exposições, monumentos, galerias de fotos, placas, prêmios, medalhas, murais, etc.
São produções lindas e apaixonantes vendidas comercialmente e evidentemente felizes. Mas também fortemente conservadoras e contra qualquer questionamento da nossa ordem autoritária. Afinal, a realidade humana, sempre foi e sempre será absolutamente contraditória e conflituosa, com interfaces “negativas” (no sentido popular atual), cujo “esquecimento” ou cegueira, ou desconhecimento hipócrita (atual), são absolutamente inadmissíveis, por equivalerem a uma confissão de fingimento (coletivo e consensual) de que pelo menos a metade da realidade não existe! Seja por má-fe ou extrema maldade,  seja por incapacidade ou burrice confessa e declarada. Não há outra alternativa possível, se queremos fazer algo sério e “responsável”.

Preferimos a “História como festa” porque essa concepção é “positiva”, fortalece o sistema dominante e aprisionante ocidental  (e sua principal estrutura: o capEtalismo), e pode ser lucrativa!  A “História como festa” não fere, não agride e nem faz mal pra ninguém:  não questiona, não magoa,  enaltece os heróis e fortalece os mitos, a mediocridade, as religiões, ideologias
E porque é na verdade a única forma possível de viver o passado de forma “presentista”. Ou melhor como objeto de consumo, que  “analisamos” (na verdade “supomos”) o passado a partir das lentes e sentimentos livres e “perfeitos” de hoje…. e depois descartamos pra “desocupar espaço”.

Assim, mantemos o passado em seu devido lugar (num  passado que deve ser esquecido e apagado ) onde ele não nos questione nem nos ameace. Afinal “sempre foi assim”. “é a natureza humana” e outras mentiras que repetimos mediocremente para manter as coisas como são.  E só o solicitamos não para explicar o mundo em que vivemos e mostrar que ele poderia ser de outro jeito. Mas para bater palmas e depois ir pra casa dormir pra um outro “dia de branco”….

 Arney Smith Barcelos, natural de Barra Mansa-RJ. É historiador formado pela USP em 2009 e Ciências Sociais pela UNICAMP (1995), com Pós Graduação em Organização de Arquivos Públicos pelo IEB/ECA-USP(2001). Partindo de sua iniciação científica sobre história de Barão Geraldo (Campinas-SP) a ser publicada, especializou-se em organizar e realizar histórias pessoais e municipais e em cultura popular tradicional.

Tags: Arney BarcellosPassadofobiaPresentecentrismo
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Comentários 1

  1. Rui Melo Filho says:
    13 anos ago

    Gostei de ler seu texo.Parabéns!

    Responder

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