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Crônica de Natal e Ano Novo

Por
30/12/2010
En Allan Robert
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**Por Allan Robert P. J.

Todos os anos é a mesma coisa: o frenesi das pessoas em busca do último presente, as ruas lotadas de gente que reclama do aumento dos preços, mas que não abre mão de todos os supérfluos de fim de ano e que briga com a balança, depois. Todos os anos eles me convidam para participar do jantar da véspera de Natal que reúne os funcionários. Só não participa quem deve viajar para passar o Natal com a família. Este ano resolvi aceitar. Até comprei uma lembrancinha pra dona Anna, a patroa. Cheguei pontualmente às oito e encontrei a mesa já arrumada. Foi a primeira vez que não tive que colocar a mesa para comer.

– E aí, Kalid, se converteu ao cristianismo?

– Ainda não, mas falta pouco. Até aprendi o espírito do Natal de vocês: se empanturrar e torrar o décimo-terceiro com presentes e tvs novas. [Lembro do Marrocos, da minha infância, da fuga com minha tia num pesqueiro em viagem clandestina rumo à Itália, para não ter o mesmo fim dos meus pais e meu irmão, envolvido com traficantes que cobraram com a vida deles uma dívida.]

– Esse é o verdadeiro espírito de Natal! Mais um pouco e você vai ganhar a cidadania italiana por direito adquirido. Só falta aprender a beber.

E todos riram e aproveitaram para se divertir com a minha aparente arrogância. Mas conheço o meu lugar. Sou apenas o mulato-pau-pra-toda-obra. Garçon, lava-pratos, responsável pela limpeza do banheiro e por jogar fora o lixo e as garrafas vazias. E o meu salário é o menor de todos, que a patroa me assumiu como aprendiz pra economizar uns trocados. Mais um ano de contrato e ela terá que me contratar como garçon ou me mandar embora. Mas eu suporto.

Não tenho pra onde voltar. Vinte e quatro de dezembro é o único dia em que dona Anna vai pra cozinha e faz aquele monte de massas que só ela sabe fazer. Salvatore, o gordo, se ocupa das carnes e de todo o resto. Mas dona Anna cozinhou algo especial pra mim e me senti o convidado de honra. Apesar da tradição italiana recomendar uma ceia leve para a véspera de Natal, com peixe e massa, há anos o pessoal resolveu mudar o hábito e fazer um jantar com carne de porco e uma mesa farta, pois é o único momento de confraternização entre os funcionários. E, depois, o restaurante só reabre dia dois de janeiro, dando tempo a todos para digerir não só a ceia, mas também o almoço do dia vinte e cinco.

– Kalid, você precisa aprender a comer salame, presunto e todas essas iguarias que caracterizam a nossa cultura.

– E abrir mão do carneiro que dona Anna fez especialmente pra mim? Seria uma desfeita. . [Com a morte da minha tia ainda durante a viagem, acabei mais sozinho que os cães que vagueiam pelo mercado de Tez, no norte do Marrocos.

Acabei numa comunidade para viciados com problemas mentais, por falta de sistemação melhor. Os padres, por motivos óbvios, preferiram dizer não haver vagas em uma das tantas escolas ou instituições de caridade. Morei lá seis meses, até ter o primeiro salário para pagar uma vaga na casa de um egípcio. Foi na comunidade que conheci o irmão do Gordo, sempre com o olhar perdido e que só ria com as minhas brincadeiras. Foi o Gordo que me arranjou o emprego no restaurante e agilizou a documentação para a minha permanência na Itália. Ano que vem recebo a cidadania e vou pra Nápoles com o Gordo e a família dele.]

Passei a noite entre as lembranças provocadas pelo carneiro com hortelã, cuidadosamente preparado pela dona Anna. Ri com as brincadeiras dos outros funcionários, que sempre me usam como alvo. Nem parecem as mesmas pessoas que se irritam e me provocam durante o Ramadã ou que vem me perturbar quando me tranco no vestiário para as minhas orações diárias. É humilhante rezar próximo ao banheiro, eu sei, mas é o único lugar onde posso ter um pouco de privacidade e tenho certeza de que Alah não se importa. Dona Anna, toda sorrisos, fez questão que eu experimentasse tudo que não houvesse carne de porco e me explicava a história do Natal. Fingi saber pouco da festa para permitir-lhe a satisfação de ensinar-me algo.

Aos poucos, cenas que conheço bem ameaçavam repetir-se, com o Gordo que entornava um copo de vinho atrás do outro e as brincadeiras que ficavam mais pesadas. Fisicamente mais pesadas. Antes da meia-noite, quando todos ainda estavam comendo panetone e tomando licor, resolvi ir embora, ou iria acabar dentro do container de lixo, outra vez.

A festa ocidental de que mais gosto é o Ano Novo, pelo espírito de renovação e esperança que envolve as pessoas. Ao contrário do Natal, não precisa de dinheiro para presentes ou ceias fartas e todo mundo pode comemorar. Basta esperar os fogos de artifício e os sinos das igrejas e levantar as mãos para o alto, desejando feliz ano novo a todos. Mas este ano vou passar a festa no hospital. É o mínimo que posso fazer. Todos no restaurante estão hospitalizados, intoxicados por uma contaminação da carne de porco da ceia de Natal. O Gordo está em coma e ninguém sabe se irá se salvar. Passo o dia num vai e vem entre o hospital e as casas dos funcionários e da dona Anna, pois sou o único a quem todos confiam para ir pegar a tv, limpar as casas ou trazer cigarros escondidos. E levar o filho do Gordo ao parque para permitir à mulher dele relaxar um pouco. Sempre o mesmo mulato-pau-pra-toda-obra. E rezo. Rezo muito para que todos melhorem e possam cumprir todos os sonhos de Ano Novo que tiveram. Rezo no meio do restaurante sobre um tapete que levei.

Esta noite, quando os sinos das igrejas tocarem, vou levantar os braços e desejar feliz ano novo a todos. E vou sonhar com Nápoles.

(*Artigo de ficção, baseado na situação dos muçulmanos na Europa, particularmente na Itália)

Allan Robert P. J., carioca de nascimento, tem 51 anos, viveu em Embu (SP) por quase duas décadas e lá se casou com Eloá, em 1987. Mudou para Salvador (BA) onde estudou Economia e o casal teve duas filhas. De lá, foram para a Itália, onde vivem atualmente. Allan é micro empresário do ramo automotivo, e Eloá trabalha no ramo de alimentação. Ambos têm raízes (amigos e parentes) na ‘ponte’ Embu-Assis-SP. Allan é irmão dos advogados Bruce P. J. e Dawidson P. J., radicados em Embu. Dawidson já foi do primeiro escalão da Assessoria Jurídica da Prefeitura de Embu no governo Geraldo Puccini Junior (1993-96), e ambos já participaram da diretoria da subsecção da OAB de Embu”.

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